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Home Artigos Desenvolvimento Sustentável O Distrito Federal precisa da indústria do século XIX para se desenvolver?

O Distrito Federal precisa da indústria do século XIX para se desenvolver?

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Por Remi Castioni*

 A Câmara dos Deputados realizou importante seminário, no início de abril, sobre o Desenvolvimento Sustentável do Distrito Federal e seu Entorno. O encontro comemorou a recriação da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) e discutiu o papel da Região Integrada do Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride). O grave é que as recomendações propostas no encontro apontam em direção questionável quanto à sustentabilidade, em particular a estratégia de industrialização da região.

 

Em se tratando de política de desenvolvimento regional, é de se louvar a iniciativa do evento, considerando que o assunto ficou esquecido na agenda brasileira por mais de 20 anos, sendo retomado no governo do presidente Lula, com o então ministro Ciro Gomes e a aprovação da Política Nacional de Desenvolvimento Regional, em 2007. Essa agenda permitiu olhar o Brasil para além dos setores econômicos tradicionais. Um novo pensamento entrou em cena ao mostrar que o Brasil é dinâmico, mesmo não sendo urbano, e que há desafios enormes a serem vencidos. A própria recriação da Sudeco (criada em 1967 e extinta em 1990) exigirá paciente esforço, a começar pela sua memória.

Mas esses desafios não justificam o teor das diretrizes que embasam as conclusões do que poderia ser uma estratégia de desenvolvimento do DF e imediações. O próprio termo “Entorno” causa estranhamento ao evidenciar algo que não faz parte e, portanto, uma das primeiras ações é, sem dúvida, a de reanimar um fórum permanente de discussões como a prevista na estrutura da Ride, o Coaride (Dec. nº 2.710, de 04/08/1998, e alterado pelo Decreto n° 3.445, de 04/05/2000).

Essa institucionalidade tem de ser reavivada com a criação da Sudeco e ser fator de pertencimento aos que aqui habitam, na perspectiva de que Brasília tem um papel importante nos fluxos que estabelece com a sua área de influência. Muitos dos problemas e das soluções vividos pelo contingente de 3,3 milhões de pessoas que habitam a área da Ride estão fora dos limites dos 22 municípios que a compõem (18 municípios são goianos, 2 mineiros, além do Distrito Federal). Acrescenta-se a isso a própria região de influência da PNDR, denominada de Mesoregião de Águas Emendadas, que contempla 99 municípios (23 mineiros e 76 goianos), e Brasília está de fora. Isso demonstra o enorme esforço de coordenação que tem de ser feito em áreas sobrepostas.

Voltando ao tema principal do seminário, foi destacado que a estratégia de desenvolvimento da Ride – ou do futuro de Brasília e de suas adjacências – depende da industrialização, e o que causa impacto: uma indústria intensiva em mão-de-obra. Ou seja, o tipo de indústria que será necessário atrair é a de produção de bens salário, com destaque para calçados, vestuário, móveis.

Nesse sentido vale assinalar que indústrias intensivas em mão-de-obra são tudo menos sustentáveis, a começar pelo uso da matéria-prima. O couro, por exemplo, no seu processo de industrialização, gera um resíduo perigoso: o cromo na forma hexavalente, material altamente nocivo ao meio ambiente e a saúde.

A despeito da farta oferta de couro em Goiás, não se justifica, no DF, essa industrialização proposta. Nossos vizinhos têm pequenos curtumes e em geral tudo o que produzem é de couro Wet Blue, que hoje é vendido a menos de 1 dólar o pé quadrado, e tem como destino final a China, Indonésia e Vietnam. É desses locais que, hoje, 70% dos calçados vendidos provêm. Atualmente, os asiáticos são imbatíveis em preço e qualidade na produção de calçados de 15 dólares, o tipo de indústria que querem instalar no DF. Na Ásia, com extensas construções, essas fábricas abrigam milhares de trabalhadores pagando baixos salários. Seria essa a indústria indicada para o desenvolvimento da nossa região? Nosso bioma, o cerrado, não suportaria essa indústria que querem atrair.

Posso assegurar que Brasília e suas adjacências têm de focar suas ações no aperfeiçoamento da sua tradição: o setor moderno de comércio e serviços. Brasília prescinde da indústria poluente para crescer. O que é preciso é uma decisão ousada de se apostar na oferta de serviços de alta, média e baixa complexidade. Brasília tem carência disso.

Somente em educação, saúde e construção, notadamente, na recuperação da ampla rede de infraestrutura urbana do DF, seriam gerados milhares de empregos. E o que falar, então, do enorme potencial das tecnologias digitais, do ecoturismo e do turismo cívico e de eventos?

A região de Brasília necessita se conectar ao século XXI e não retornar ao século XIX. Talvez sejamos uma das poucas regiões do mundo em que se pode fazer isso. E por que não fazemos? É para reduzir a massa salarial da região, pagando salários aviltantes para costuradores de calçados?  A nossa “praia” é outra.

 * é economista. Especialista em Economia do Trabalho pela Unicamp, onde também fez doutorado. É professor e chefe do departamento de Planejamento e Administração da Faculdade de Educação da UnB.

Última atualização em Qui, 07 de Maio de 2009 22:51  

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