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Segredos da floresta

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Por Lia Vasconcelos

Fonte: Revista Istoé em 25/06/2003

De alimentos a jóias, os frutos da Amazônia podem garantir o sustento de quem vive da mata.

Castanha, farinha, bombom, essências, óleos, cremes, jóias, madeiras nobres certificadas e artesanato são alguns dos tesouros escondidos na Amazônia. Apesar de ocupar cerca de dois terços do território nacional, a floresta contribui só com 7% da riqueza anual gerada pelo País. Para reverter esse quadro, proliferam iniciativas para viabilizar a economia associada a projetos de desenvolvimento sustentável. Uma estimativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra que a diversidade das espécies de animais e plantas amazônicas pode render R$ 4 trilhões, ou quatro vezes o PIB nacional.

Na terça-feira 17, 650 participantes dos setores público, privado e do chamado terceiro setor se reuniram em Belém, no Pará, com propostas para tornar a economia florestal o motor do desenvolvimento na região. No encontro foi criado o primeiro grupo de produtores de madeira com selo verde, unindo cinco empresas e duas comunidades do Acre.

Uma iniciativa federal batizada de Programa Nacional de Florestas promete acionar outro gatilho em favor dos produtos ecologicamente corretos. A idéia é transformar, até 2010, uma área do tamanho de dois Estados de São Paulo em florestas nacionais, ou Flonas, onde se permitiria a exploração da riqueza natural obedecendo às regras do manejo sustentável. Ou seja, a extração dos recursos florestais deve ser feita de modo a melhorar a qualidade de vida da população local, sem comprometer a floresta.

"Para que a Amazônia seja um celeiro de produtos, é preciso que haja regularização fundiária. Só assim haverá investimento. Cerca de 45% da floresta é terra de ninguém", pondera Adalberto Veríssimo, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). A madeira certificada continua a ser, em média, 20% mais cara do que as toras sem selo verde. Outros produtos ecologicamente corretos são, em geral, um terço mais caros. "O apelo desses produtos está no trabalho atrás de cada item e de quantas famílias se nutrem dessa alternativa econômica para não deixar sua terra", reflete Veríssimo. "Países como Alemanha, Inglaterra e Holanda só aceitam madeira certificada. Aumentar nossa produção significa ganhar acesso a mercados antes restritos", afirma.

A boa notícia é que não faltam iniciativas. A ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira criou o balcão de serviços para negócios sustentáveis, onde oferece assessoria comercial, financeira e jurídica para manter as tradições culturais das comunidades. "Uma economia com base no desenvolvimento sustentável pode gerar 500 mil empregos diretos e indiretos em quatro anos", calcula Roberto Smeraldi, diretor da instituição. O projeto, que no primeiro ano recebe R$ 1,5 milhão da Holanda, funciona como uma empresa de consultoria, que também dá treinamento e busca compradores para os produtos da mata.

Na floresta, até os restos de madeira, palha, couro, barro, fibras, folhas e frutos viram peças de decoração. Esse é o trabalho da Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi), em Manaus. Um de seus projetos conta com 150 fornecedores que fabricam castiçais, cadeiras, mesas, fruteiras e luminárias. Os preços variam de R$ 3 (um fruto de tucumã, árvore típica da Amazônia) a R$ 10 mil (uma mesa de jantar). "Queremos aumentar a produção e distribuir no Brasil inteiro. Essa é a forma de fixar os produtores na região, trazer divisas e preservar as culturas indígena e cabocla", explica Isa Assef dos Santos, diretora da Fucapi.

Decoração - O leque de produtos é respeitável. A árvore tucumã é um exemplo: seu caule vira móvel, suas sementes, jóias; e a carne do seu fruto é usada nos alimentos. Castanha-do-brasil, bombom com recheio de cupuaçu - fruta rica em potássio, vitamina C e ferro -, farinha de mandioca, palmito, guaraná em pó, sabonete de murmuru, jóias e bijuterias da Amazônia são apenas alguns produtos promovidos pela Agência de Negócios do Estado do Acre (Anac). São cerca de 150 peças de marchetaria e 700 de jóias por mês, 600 toneladas de farinha de mandioca e 12 mil toneladas de castanha ensacadas ao ano. Só na produção de farinha de mandioca e castanha estão envolvidas 2.350 famílias. As jóias são criadas com sementes regionais como jarina, tucumã, marajá e usam metais nobres como prata e ouro. Os acessórios feitos do leite da seringueira já beneficiam 200 famílias na Amazônia. O couro vegetal é uma alternativa ao couro dos animais. Sua linha de produtos inclui bolsas, estojos e nécessaires e são uma forma de diversificar o extrativismo da seringa.

Outro setor que já rendeu dividendos foi a indústria cosmética. Uma das experiências pioneiras da Natura foi a linha Ekos, sinônimo de vida em tupi-guarani. São 38 itens entre xampus, condicionadores, óleos e colônias que usam andiroba, buriti, pitanga, cacau e castanha-do-brasil. Os produtos são feitos com embalagens recicláveis e biodegradáveis, que se decompõem em 28 dias.

Beleza - A matéria-prima vem de várias regiões. A andiroba é da reserva extrativista do Médio Juruá, no Amazonas, a castanha-do-brasil vem de Iratapuru, no Amapá, e o cupuaçu é colhido em Rondônia. Não é a única iniciativa. A Beraca, empresa paulista intermediária entre produtores e indústrias, criou um programa para pesquisar os ingredientes da floresta. O óleo de copaíba serve para fazer xampu anticaspa e produtos para acne. O óleo de buriti vira creme, o de maracujá está em tinturas para os cabelos e o de andiroba, em produtos anticelulite e sais de banho.

Os projetos de desenvolvimento sustentável têm apelo inquestionável. Prova disso é que existe, em São Paulo, uma loja especializada em artigos com história social ou ecológica para contar. "Temos material de escritório, móveis e artigos de higiene pessoal. Em junho de 2002 nosso faturamento mensal era de R$ 40 mil. Hoje, é de R$ 100 mil", diz Ricardo Pedroso, dono da Projeto Terra, a primeira loja a receber o selo verde do Conselho de Manejo Florestal (FSC), instituição que certifica produtos florestais.

O Pão de Açúcar, a maior rede de supermercados do Brasil, inaugura em julho, a princípio em três lojas paulistas, as gôndolas para vender produtos fornecidos por comunidades do Acre, Amazonas e Mato Grosso do Sul. Há 800 produtos cadastrados, o que inclui mercearia, objetos de decoração, culinária, higiene pessoal e têxteis. Um dos produtos é o mel dos índios do Xingu, onde vivem cerca de quatro mil habitantes de 14 povos indígenas. Para eles, a apicultura é uma opção econômica às atividades tradicionais de subsistência, como a pesca, a caça, a agricultura e, por vezes, até mesmo a extração ilegal de madeira.

Última atualização em Qui, 19 de Março de 2009 13:12  

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