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Os complexos rítmos e caminhos da utopia

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Por Cristiane Faustino*

 A reviravolta contextual que marca a Zona Costeira nos últimos anos se deu não só pela chegada do capital, com sua brutalidade econômica, cultural e social, mas também pela resistência das populações locais e pela ação de organizações da sociedade civil que, na contramão da maré, vão transformando desejos em projetos de vida, sonhos em utopias. Mas, aos ritmos dessas utopias cabe explicitar contrapontos, denunciar os descaminhos e propor ao presente e ao futuro as novidades da dignidade, da justiça e da democracia plenas. Pois o que parece, como diz o dito popular, um constante “correr atrás do prejuízo”, na verdade é também reflexo de concepções, de modos de pensar a história, que não se esgotam no abstrato, mas se concretizam no cotidiano em múltiplas formas de lutas: das passeatas às experiências sócio-solidárias de produção da vida.

 

 

 

Ao contrário do que se pensa - que a ação desses sujeitos visa “estacionar” a história da Zona Costeira - esses grupos propõem uma nova forma de movimentação, uma “contra roda-viva” ao neoliberalismo, que também é roda e que também é viva, mas se diferencia pela capacidade de avaliar e projetar a realidade pela perspectiva de autonomia e soberania, re-significando desejos, reconstruindo sonhos e horizontes, não únicos, mas na riqueza da multiplicidade inerente aos humanos.O ritmo desses sujeitos em transformar a realidade é tanto mais cadenciado, quanto mais se expande a capacidade de compreender a complexidade dessa realidade e dos esforços necessários para construir a democracia plena. Essa última não pode ser entendida apenas como legitimidade e condições de intervir sobre as políticas, mas, sobretudo, como uma forma de vida permeada pela igualdade entre as pessoas e pela capacidade de (re)definir o que é a própria democracia – que desde antigos tempos tem sido limitada aos interesses privados de indivíduos ou de pequenos grupos. Sob tais ditames, a democracia, desprovida de uma visão do diverso e do reconhecimento das tramas sociais que hierarquizam grupos e indivíduos, é reduzida a mero instrumento “público” que favorece aos que tradicionalmente detêm o poder, tornando-se não mais que um mecanismo de manutenção da ordem.

 

 

 

Neste sentido, é preciso que nossos sonhos não se alienem do entendimento sobre as múltiplas facetas da realidade que queremos transformar, nem das condicionantes que situam as desigualdades para além da pobreza ou riqueza material, imediatamente vista pelo olhar atento, nem, ainda, das condições reais de exercício de poder entre movimentos sociais, estado e setores econômicos dominantes.

 

 

 

As múltiplas formas de desigualdades também se assentam em concepções, preconceitos e discriminações, como por exemplo, no machismo, no racismo e na homofobia, que situam mulheres, povos indígenas, populações negras, homossexuais, em condições de subalternidade, marcada pela negação de direitos, inclusive do direito a ter direito, uma vez que ao conservadorismo parece estranho e mesmo absurdo que certos grupos queiram agora reivindicar-se sujeitos de direitos, portadores de idéias, discursos e práticas próprias. Exemplos disso temos todos os dias, na negação da própria existência de comunidades quilombolas, na reprodução do discurso da “democracia racial”, na especulação sobre as terras indígenas, nas limitações à participação política das mulheres, na violência cotidiana e institucional contra os homossexuais, com “expressa” negação do direito à liberdade afetivo-sexual.

 

 

 

Essas estruturas desiguais não isentam as comunidades costeiras, não isentam os movimentos sociais nem isentam as organizações da sociedade civil, tendo esses que enfrentar-se cotidianamente com seus próprios limites, para fazer romper as barreiras internas que podem “colocar em xeque”, a construção de um projeto político radicalmente revolucionário, que reconheça e legitime a diversidade como riqueza do humano e não como critério classificatório de valores e lugares sociais desiguais e opressores.

 

 

 

Neste sentido, é que múltiplos desafios vão se tornando visíveis às nossas lutas, dentre esses merece destaque a imperativa necessidade da constituição das mulheres como sujeito político. Para a Zona Costeira, tal desafio se revela cada vez mais pela ação das próprias mulheres que habitam as comunidades, que ao longo das experiências de lutas vêm buscando fazer ecoar suas vozes, explicitar e visibilizar suas questões. Para as mulheres, constituir sua autonomia não se restringe apenas a refletir sobre suas condições nas comunidades costeiras e dentro dos grupos organizados, mas em construir possibilidades para romper silêncios e fazer desabar as estruturas patriarcais que historicamente as situam em condições de desigualdades. Isso implica em compreender as mulheres para além de sua presença física e de tudo aquilo que tradicionalmente se espera de nós, a doçura, o cuidado e a delicadeza, para ampliar as possibilidades do “ser mulher”, dotada de capacidade de pensar, de fazer política e de decidir sobre os rumos do mundo e das suas comunidades.

 

 

 

Para tanto, faz-se mister a ruptura com os simbolismos que nos situam obrigatoriamente no papel de servir, seja na cama ou na cozinha, e nos impõe, silenciadas pelas ausências das possibilidades, estereótipos justificados em essencialismos profanos e divinizados que ao longo da história tenta nos fixar no lugar do sensual, do doméstico e do cuidado, nos negando a humanidade plena e impedindo nossa participação política. Como humanas, somos dotadas de todas as capacidades, assim como os homens também são dotados de possibilidades para o amor, para o cuidado e para o doméstico. Incorporar a luta pela emancipação das mulheres, é uma condição para que em nossas lutas tenhamos de fato a radicalidade da transformação.

 

 

 

A homens e mulheres cabe também cuidar da percepção de que as pessoas têm cores, raças e etnias, e isso não representa um problema em si mesmo. Mas quando esses elementos são utilizados como estruturantes de hierarquias e desigualdades, tendo em vista que as populações não brancas são as que historicamente enfrentam o racismo e o etnocentrismo, que hierarquiza os povos e subordina o “diferente” sob o discurso da referência, passam a representar um problema de ordem política, social e cultural e econômica. Afinal, quem é a referência? O homem, branco, proprietário, frente ao qual todas as demais pessoas são menores, e em conseqüência seus valores e suas culturas são considerados atrasados e transitórios e precisam, para evoluírem, dos valores e culturas desse “ser de referência”. Tem sido sempre assim ao longo da história: os indígenas e suas culturas foram submetidas ao cristianismo; os povos negros foram escravizados, suas culturas, suas cores, suas falas, suas religiosidades foram endemonizadas e, são a esses povos e seus descendentes que se destinam o “lixo” do “desenvolvimento”; são eles que têm suas terras invadidas e suas formas de vida dizimadas.

 

 

 

Nesse sentido, afirmar a vida dos Povos do Mar, não pode reduzir-se a um encantamento, alienado das perversas reproduções do patriarcado, do racismo, da homofobia e outras desigualdades que também estão presentes nos modos de vida que afirmamos. Isso nos impõe o desafio de construir pensamentos e estratégias de intervenção que situem a afirmação dos Povos do Mar no sonho revolucionário da igualdade e da democracia plenas, inclusive quando isso implica no próprio questionamento daquilo que queremos afirmar, reinventando ritmos e caminhos numa complexa dança de utopias.

 

 * Assessora do programa Educação Cultura e Cidadania do Instituto Terramar  www.terramar.org.br

 

Instituto Terramar  - Boletim Marulho p.6-7

 

 

 

Última atualização em Sex, 15 de Maio de 2009 09:43  

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