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Onde pesa a barra do desastre ambiental?

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Por Fernando Gabeira *

São João da Barra - Aqui o Rio paraíba se encontra com o mar. Aqui se segura a barra dessa catástrofe ambiental. Vimos boi e cavalo mortos, tartarugas dando na praia e, o que mais comove, cardumes tentando se salvar da asfixia , suicidando-se na areia.

Foram 1 milhão e duzentos mil metros cúbicos, viajando 180 quilômetros. Agora elas se alojam nos manguezais e formam uma mancha que se estende 5 quilômetros oceano adentro. As praias de São João da Barra foram interditadas. A espuma amarelada se acumula e ouvi uma descrição assim: a espuma não deixa que se ouçam o barulho das ondas.

São João da Barra está sem água e seus dois mil pescadores sem trabalho. Mesmo os que pescam no oceano dificilmente conseguirão provar que seu peixe escapou ao desastre. Lá em Minas, soube que os governos ainda decidem de quem é culpa, que providências tomar. Aqui, o oceano devolve a espuma na foz do paraíba. Veneno vai, veneno vem, como um sinistro ioiô.

Aqui foi possível planejar alguma coisa: cadastrar pescadores para ajuda social, racionalizar o uso de carros pipas, fiscalizar a pesca. Mas ainda estamos na idade da pedra quando o assunto é reação a catástrofes.

Bate-se muita cabeça. Quis formular um pequeno trabalho para salvar os manguezais. Mas não havia análises do material que envenenou o Rio. Pedi laudos e assim que os recebi coloquei no site. É preciso transparência, embora ache que muitas perguntas continuam no ar.

Será que a empresa usava a técnica craft de embranquecer a polpa? Nesse caso, o veneno vem cheio de organoclorados, dixoninas altamente cancerígenas. O Ibama de Minas diz que não, que há somente o licor negro utilizado para transformar a madeira em celulose. Mas esse Ibama de Minas foi um pouco lento no manejo da crise.

Sinto saudades da Petrobrás. Sala de crise, boletins horários, contatos internacionais. O governo de um modo geral é muito pobre, não consegue dar a mesma resposta de uma grande empresa.

Vão dizer que sou neoliberal. Que se fodam. Querem continuar apitando impedimento ideológico na margem do campo. Mas o jogo mesmo é feito por quem está aberto à realidade, mudando a todo instante para se adaptar a ela.

Como gerir a falta d´água numa área que atinge 700 mil pessoas? Como organizar um mecanismo de informação para impedir que as pessoas morram envenenadas e impeçam seus bichos de morrerem também? Como fazer frente a um desastre usando o conhecimento internacional?

Só depois de uma semana, obtive os laudos sobre o material que vazou em Cataguazes. Todos os parceiros internacionais diziam: como podemos colaborar se ignoramos a substância que contaminou o Rio? Ontem, recebi, finalmente, três laudos. A primeira coisa que nos ocorreu foi disponibilizá-los na internet.

Aliás, cada desastre colocado na internet ganha uma chance maior de solução. Encontramos empresas americanas que monitoram catástrofes em fluxo dágua em tempo real. Mas custam caro.

Mas é possível descobrir novas técnicas, combinar experiências, aprender. Uma coisa é certa: as pessoas ganharam consciência ambiental e perceberam como um rio é importante em suas vidas.

Um pescador de São João disse para a tevê que vivia no céu que, de repente, se transformou num inferno. Outro disse que o que trazia vida, trouxe morte. Essa tomada de consciência é ampla. Muitas cidades descobriram como são dependentes do rio Paraíba e se perguntam se não seria interessante construir uma alternativa. É o caso de Campos com 500 mil habitantes. A cidade recebe royalties do petróleo e os usa para financiar times de vôlei e basquete. Ocupa um espaço nacional nesses esportes. Mas não construíra uma alternativa para garantir esse recurso que, quando jornalista no interior, chamávamos de precioso líquido.

Certamente, financiar o esporte dá mais votos. Um grupo de deputados andou por aqui. Queriam prender os donos da empresa de Cataguazes. Isso daria uma certa emoção no Jornal Nacional. Mas não resolveria os problemas concretos. Num desastre, aprendi, há bombeiros e policiais. Os policiais querem saber de quem é a culpa; os bombeiros querem salvar quem está a perigo.

A empresa de Cataguazes produziu uma tragédia ecológica muitas vezes superior à sua capacidade de indenizar. O ideal agora é concentrar na solução dos problemas. Um dos mais importantes é fazer com que as águas envenenadas não fiquem sendo devolvidas pela maré como um ioiô que vai e vem.

Quando se decidiu pela abertura das comportas dos reservatórios de Minas, a idéia era aumentar e apressar o fluxo para que a longa mancha de veneno se perdesse no mar. Mas essas coisas têm de ser feitas na maré baixa. Ninguém quis saber, na hora do sufoco, qual era a tábua das marés.

Agora será preciso resolver essa parada, reabrindo reservatórios na maré baixa. Há muitos outros problemas a serem equacionados. Falei com o Moscatelli sobre os manguezais que foram atingidos. Ele poderá nos ajudar mas trabalha com outro desastre ambiental, o da Ingá Metais em Sepetiba.

É outro desastre que não teve muito ibope. Apesar da estupidez dos empresários e da grande margem de incompetência, o Paraíba vai sobreviver. As notícias que vêm da situação, no montante são animadoras. A água está ficando limpa. Soube também que muitos peixes se salvaram fugindo da onda envenenada e mergulhando nas águas do rio Muriaé.

Com os peixes que se salvaram e um mínimo de racionalidade, poderemos continuar. Até quando? Bem isso vai depender do risco Brasil, essa mistura de burrice, corrupção e incompetência que destrói um dos lugares mais bonitos do planeta.


* Fernando Gabeira é Deputado Federal pelo Partido Verde no Estado do Rio de Janeiro.

 

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