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Retrocesso Ambiental

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Por Ulisses Campbell  da equipe do Correio Brasiliense

Ainda não há avaliações precisas. Mas tudo indica que o desastre ambiental provocado pelo vazamento da represa de dejetos químicos da indústria mineira Cataguazes Papéis entrará para a história como o maior já ocorrido no Brasil. O descaso do poder público e das empresas com o meio ambiente, a falta de uma fiscalização eficiente e os escassos recursos aplicados em prevenção aumentam, ano a ano, o número de crimes ecológicos no país. De acordo com os dados da organização não-governamental Brasil Ambiente, de 2000 até agora foram registrados 31 acidentes ambientais. Quase quatro vezes mais que os oito desastres ocorridos na década de 90.

Em menos de quatro anos, vazamentos em dutos, navios e depósitos de rejeitos industriais despejaram 8,2 bilhões de litros de produtos químicos tóxicos em córregos, rios e terrenos. Em toda a década de 90, foram 6 bilhões de litros. A maior responsável pelos crimes ambientais é a Petrobras. Sozinha, a estatal derramou mais de 5 bilhões de litros de óleo em rios e no mar entre 2000 e 2002. A empresa pagou R$ 207 milhões em multas em dois anos pelos crimes ambientais.

Segundo o vice-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Nilvo Luiz Alves da Silva, o aumento no número de desastres ocorre porque o governo não fiscaliza com eficiência nem atua com programas de prevenção e proteção à ecologia. Além disso, as empresas não incorporaram às suas atividades o valor da preservação.

O desleixo da Cataguazes Papéis é um exemplo disso. No dia 29 de março, o rompimento de um depósito de rejeitos da empresa, localizada na cidade mineira de Cataguases, despejou num córrego mais de 1,5 bilhão de litros de soda cáustica e lignina. A mancha tóxica contaminou os rios Pomba e Paraíba do Sul, que cortam a região norte do Rio. Na sexta-feira, a mancha chegou ao mar. Ao longo da semana, a contaminação dos dois rios deixou 800 mil pessoas sem água em sete municípios fluminenses. Milhares de peixes morreram o e mais de 2 mil pescadores estão proibidos de pescar na região. ‘‘Já interditamos 10 quilômetros de praia para banho e teremos que interditar mais’’, diz o prefeito de São João da Barra, Alberto Devaire Filho, município fluminense que fica junto à foz do Paraíba do Sul.

O transtorno causado à população e as perdas econômicas para os pescadores são apenas uma face do crime ambiental. Especialistas em ambiente dizem que os prejuízos para o ecossistema da região são incalculáveis. Conforme o biólogo Carlos Eduardo Rezende, professor do laboratório de Ciências Ambientais da Universidade do Norte Fluminense (Uenf), o rio Paraíba do Sul corre o risco de se transformar em uma grande piscina de água suja corrente depois da passagem da grande mancha tóxica.

Embora os estudos sobre os efeitos da agressão ao sistema natural ainda não estejam prontos, os pesquisadores prevêem o tamanho dos estragos. A bióloga Ana Paula Madeira Di Beneditto informa que a bacia do rio Paraíba do Sul tem mais de 160 espécies de peixes catalogadas. No rio Pomba, há 56 espécies. Para reconstituir a biodiversidade da região, afirma Ana Paula, será preciso refazer a cadeia alimentar, restaurando os organismos vegetais para, depois, promover o repovoamento de peixes e crustáceos. Essa tarefa pode levar dezena de anos. ‘‘Não é um desastre qualquer. É um megadesastre ’’. diz o geógrafo Marcos Antônio Pedlowiski, diretor do laboratório de planejamento ambiental da Uenj.


A frase

Não é um desastre qualquer. É um megadesastre

Marcos Antônio Pedlowiski, geógrafo do laboratório de planejamento ambiental da Uenj, sobre o vazamento do depósito de lixo tóxico da Cataguazes Papéis


Sul capixaba sob ameaça

Depois de praticamente acabar com a fauna dos Rios Pomba e Paraíba do Sul, a mancha negra de produtos tóxicos que vazou há oito dias da Cataguazes Papéis, em Minas Gerais, tinha avançado ontem por uma área de cerca de 55 quilômetros quadrados em direção ao mar, de acordo com técnicos do Ibama. O vento leste deslocava a poluição em direção à costa do município de Macaé, a cerca de 100 quilômetros de Campos, e poderia afetar até mesmo praias do sul do Espírito Santo, na avaliação do órgão ambiental federal

A governadora do Rio, Rosinha Matheus, anunciou ontem a liberação da água em alguns pontos de captação dos rios Pomba e Paraíba do Sul. A Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae) vai retomar a retirada e tratamento de água em cinco dos oito municípios do RJ afetados pelo vazamento de resíduos tóxicos: Miracema, Santo Antônio de Pádua, Aperibé, Cambuci e São Fidélis. Com a medida, o abastecimento de água no noroeste fluminense pode ser reiniciado neste domingo.

 

MEMÓRIA

 

Crimes contra a vida

18 de janeiro de 2000

O rompimento de um duto da Petrobras que liga a Refinaria Duque de Caxias ao terminal da Ilha d’Água provocou o vazamento de 1,3 milhão de óleo combustível na Baía de Guanabara. A mancha se espalhou por 40 quilômetros quadrados

16 de março de 2000

O navio Mafra, da Frota Nacional de Petróleo, derramou 7.250 litros de óleo no canal de São Sebastião, litoral Norte de São Paulo. O produto transbordou do tanque de reserva de resíduos oleosos, situado no lado esquerdo da popa. O Cetesb multou a Petrobrás em R$ 92,7 mil

26 de junho de 2000

Nova mancha de óleo de um quilômetro de extensão apareceu próximo à Ilha d’Água, na Baía de Guanabara. Desta vez, 380 litros do combustível foram lançados ao mar pelo navio Cantagalo, que presta serviços à Petrobras. O despejo ocorreu numa manobra para deslastreamento da embarcação

16 de julho de 2000

Um vazamento de 4 milhões de litros de óleo da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, na região metropolitana de Curitiba, contamina as águas e os solos e mata milhares de animais

13 de maio de 2002

O navio Brotas da Transpetro, subsidiária de transportes da Petrobras, derrama cerca de 16 mil litros de petróleo na baía de Ilha Grande, na região de Angra dos Reis, no Rio

25 de junho de 2002

Um tanque de óleo se rompe no pátio da empresa Ingrax, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba (PR), deixando vazar 15 mil litros da substância


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Fonte: Correio Braziliense

Última atualização em Qui, 19 de Março de 2009 19:26  

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